.













Sério, cadê?
.
Luis Nassif contra o baixo astral .


DOSTOIÉVSKI, moscovita condenado à morte por sua ligação com movimentos contrários ao regime czarista, teve sua pena transformada e foi deportado à Sibéria, onde ficou preso por quase cinco anos. Em Notas do Subterrâneo, de 1864, o personagem escreve num diário as mesquinharias de sua história recente.

Agora olhe pra cá e diga xis
Me chamo PEDRO. Nasci em março de 81 no bairro carioca de Santa Teresa. Moro em Fortaleza há alguns anos, mas ainda saio daqui. Desde seis de agosto de 2006 moro em Salvador. Meus pais se chamam Eveline, publicitária e ruiva, e Elcio, fotógrafo e nômade. Não sou Flamen e nem tenho uma nê chamá Terê. Perfil completo.


Também posso ser encontrado aqui:
Portfolio
orkut
Last.fm
Tanomeio
Flickr
YouTube
LinkedIn
Couchsurfing
Semana Passada





Faça o que eu faço.
Ouça o que eu ouço
18 de fevereiro de 2003
Muito já se falou sobre o futuro do mindinho, tratado assim no diminutivo mais por desprezo que por carinho. Está fadado ao esquecimento, ao desmembramento até. Será artigo raro, contrabandeado de sítios arqueológicos na Zâmbia direto para os living rooms da quinta avenida.

7 de fevereiro de 2003
E me surge essa figura de conversa amena, despretensões e coisinhas. O assunto não aparece e nos despedimos. Fique com Deus, ela diz. Ela protestante, eu agnóstico. Entramos num bate-boca que, claro, foi a cabo sem nenhum vestígio de entendimento.

4 de fevereiro de 2003
Na geladeira faltavam ovos, mas de bife tinha a conta. Sacou a frigideira bum, cortou a cebola bum, picou pimentão bum, jogou sal no bife bum, dispensou óleo bum. E questionava-se sobre qual o homem mais respeitável: se Luís Gonzaga ou Roy J. Plunkett, o criador do teflon.

29 de janeiro de 2003
- Quer dizer que tu matou, foi?
- Foi.
- E por que é que tu fez isso, macho?
- Ele não ia com a minha cara.
- O que mais que tu tem pra dizer?
- Queria mandar um abraço pro Monstrim, que tá me assistindo. Monstrim!


27 de janeiro de 2003
Sou recém-chegado nesse negócio de comer Brigitte, admito. Há os veteranos, como meu pai, que sabem de cor a filmografia, a discografia e a biografia. Eu só sei da taquicardia, que nem é de Brigitte, é minha. Sei do verão de 64, de sua ida ao Rio e a Búzios, da Brigitte de bronze que ficou lá como prova irrefutável de sua passagem.

21 de janeiro de 2003
Tio Saulo dirigia a kombi dos Mutantes e namorava as moças mais lindas de que se tinha notícia naquelas freguesias. Apareceu em casa com uma aeromoça da Vasp como quem traz novidade para a família ver. Foi barrado aqui e acolá por causa do cabelo grande. Assim devem nascer os mitos: cabelo grande e censura.

21 de janeiro de 2003
Ouvi com paciência de Jó uma irmã, lá com seus 70 anos, comentando que a vida iria melhorar, enquanto manejava com certa dificuldade o ofício cristão de falar e manter os dentes dentro da boca ao mesmo tempo. A vida iria melhorar por que tinha fé em Deus, em Santo Expedito, além de um e outro do segundo escalão da hierarquia divina.

17 de janeiro de 2003
Tornei o sofá um confortável divã, e ali me estirei para o aprendizado. Repousei a alma sobre o bonito móvel de madeira talhada e ela ficou lá, estátua, sendo dissecada por suposições. Sentimentos contradizentes me apunhalavam agora e era bom sendo ruim. Cozinhei um bife para saciar a falta de apetite.

14 de janeiro de 2003
Vou comprar umas roupas, fazer uns contatos e quarta ou quinta-feira devo estar virando bicha. Até já escolhi o meu tipo: serei a bicha atormentada. Ficarei me perguntando se é isso mesmo que quero ser, se ainda não haverá uma artéria hetero nesse coração gls.

9 de janeiro de 2003
Vou fazendo um travelling pelo ponto de ônibus onde as mulheres cochicham em tom assombrado, pego um extreme close-up da moçoila que apressa o passo e me desaprova pelo canto dos olhos e saio em disparada, action cam, antes que o segurança do banco me dê um fade out direto no queixo.

6 de janeiro de 2003
Aqui as coisas estão bem. As coisas estão acontecendo e fazendo testemunhas. Estão sendo enviadas e matando saudades. Estão caindo na sopa. As coisas estão meio desarrumadas, desculpe a bagunça. Apesar de ninguém ter perguntado, as coisas estão bem, obrigado.

1o. de janeiro de 2003
Foram filho, mãe e avós assistir a O Filho da Noiva. Seu Osvaldo e dona Cecília passaram as duas horas com as mãos entrelaçadas e os fura-bolos se beliscando. É um filme bonito, bobo, leva às lágrimas o mais sisudo dos homens, mas para tudo há um limite. "Poupe-me, Osvaldo. Soluços, não."

23 de dezembro de 2002
Não tem mistério: xampu se compra pela descrição. Quanto mais longa e técnica a descrição, melhor o produto. Ela gosta quando empresto meu ar confiante às respostas. Bota o saponáceo no carrinho e vai, sabendo que respondi com a autoridade de quem entende de xampu.

21 de dezembro de 2002
D. Ma. sempre se orgulhou dos dotes do esposo, S. Fco., menino pobre saído dos quintos do NE para a pompa do DF de JK. Prosperou. Pelas mãos crioulas de S. Fco. passam hoje todos os pedidos de criação de siglas e abreviaturas do país, sejam do com., sejam pop., poét. ou polít. Burocrata?

19 de dezembro de 2002
Para o café com leite: coloque na xícara uma colher de sopa de leite em pó, adicione um dedo d'água e mexa. Coloque outra colher, adicione outro dedo e mexa outra vez. Vá adicionando a água e mexendo mais um pouco até encher. Não importa se hoje em dia o leite é instantâneo - para Seu Osvaldo, o importante é manter a tradição.

17 de dezembro de 2002
O sobrado já tinha para lá dos seus anos. Não se podia ver nada três palmos à frente, embora o som chegasse radiográfico. O sopro contornava as janelas e ia tomando a forma de vozes agudas, macias, inevitavelmente femininas. Pareciam ser jovens e segredavam entre risos: "Como é charmoso, até compensa a falta de bunda".

L U G A R E S
... Chimères [>]
... Observatório da Imprensa [>]
... Relume Dumará [>]
... Society for Cinema Studies [>]
... Carta Capital [>]
A R Q U I V O

15.1.08, 11:42

Intermezzo
O jogo do um erro





PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



31.12.07, 13:40
Dois dedos de raiva

Jim e Tomé subiram a escadaria que dava para a rua sem palavras. Saíram da sessão desapontados, Tomé um pouco mais que Jim. Florentino teve seu amor demais tornado obsessão. A sobriedade de Fermina virou frigidez. Transposição técnica de um livro apaixonado.

Aquela rua com árvores demais causava sombra mesmo à noite. Do alto, ipês irregulares estampavam o asfalto com bolotinhas amarelas de vapor de mercúrio. Tomé e Jim subiram num táxi para o Centro, onde, ouviram, um albergue espanhol dava festas memoráveis.

Após a porta imensa, o caminho bifurcava para uma escada e um corredor estreito de paredes descascadas. Ao fim do corredor, um grande vão destampado, quadrangular, pé direito eterno. Velas de sete dias hesitavam a única fonte de luz. Jim e Tomé respiraram fundo.

Cítaras e timbais percutiam com violência. Não se podia entender o tempo da música, tamanha a reverberação. Tomé debatia as pernas aleatoriamente: calculava que talvez assim, por acidente, ao menos metade de seus passos acertasse o ritmo. Jim já não precisava fazer tanto. Era inglês e, para uma noite de sucesso, só precisava continuar sendo-o.

No bar, uma morena de shorts improváveis servia os pedidos. Tomé podia prevê-la com nitidez nuclear engatada à sua cintura.

— Uma caipirinha, pouco açúcar — pediu Tomé, enquanto pensava, convicto, que mulher alguma naquele lugar se interessaria por um sujeito de suspensórios e óculos com armação tartaruga. Cerrou o punho direito e por dois instantes se odiou.

Jim viu aproximarem-se duas moças. Pareciam irmãs, e eram. Pareciam italianas, mas nisso Jim se enganou: “Göteborg”, corrigiu a que parecia ser mais velha, e era. Nórdicas de tipo mediterrâneo. Cheiraram-se pela estrangeirice. Tomé não resistiu: odiou-se outra vez mais.

Avistou uma japonesa de vestido jardineira, postada sobre um bloco de concreto, dando à vista três quartos de pernas premeditados. Ela quer você, Tomé.

— So, why don’t you join me right over there so we can dance a little?
— You know what, I’m tired and I’m leaving in just a moment, but thanks.
— Yeah, I know that talk — respondeu Tomé com dignidade e dois dedos de raiva.


Senhores, o café está para fechar. Termino o texto ano que vem, se não se importam.


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



10.12.07, 20:35
Fortaleza, 10 de dezembro de 2007

« Agora que decidi escrever sobre isso, ainda não estou certa se sobre isso, que sempre evito. Talvez eu precise de um amor apenas para ter algo leve-cortante para pensar enquanto olho pela janela do ônibus, a mesma paisagem. (...) Agora estão sem graça as viagens. Penso em coisas sérias, e essas coisas exigem demais, não é agradável nem leve, ainda que cortante. Nada que rasgue nem de significativo para gravar nos outdoors. Tudo é breve e não pode ficar espalhado pela cidade. (...) E claro que sinto falta, de tal forma que decidi e venho lhe pedir, querido, que fuja comigo.

Tenho um plano: Buenos Aires, você e eu. Não será difícil, cuidaremos cada um de arranjar um sustento. Faremos um ninhozinho, dessa vez teremos flores. Então eu sofrerei como desejo, como minha natureza pede, como me é vital. Você trará de novo a poesia. Eu voltarei a corroer-me cada vez que você sair as nove da manhã (mesmo que eu lhe apresse para isso, porque é importante que você não perca o emprego) e ficar tão atordoada passeando pela casa, até decidir dobrar cada uma de suas camisas e lhe possuir através disso. Depois, calada, mas ofendida, chorar porque você tarda e quando chega se interessa mais por um joguinho qualquer que por mim e, no fim, morrer tão deliciosamente nos seus braços, desesperadamente e de novo a cada lembrança.

Agora mal lembro, meu bem. Lembro tão apagado, só os fatos, quase sem sensações. Preciso que me diga se vai, se vamos, se aceita. Como quando você estava com aquela tosse sem fim e eu não sabia mais o que fazer, pois sempre que muito me esforçava fazia alguma coisa errada, e sua tia, uma senhora tão doce, foi lhe salvar de mim e da tosse. Sua tia, que não me enganava nada com aquela candura e jeito de vovó, lhe tirou de mim. Eu chorei a noite toda, mas no dia seguinte, vesti uma roupa toda justa, um salto e pintei os olhos (eu sempre pintava os olhos e rosava as bochechas quando estava contigo) e fui lhe buscar de volta para meus descuidados. Você estava mimado, de meias, samba-canção, cachecol, vitamina e biscoito. Que me importava?, sem rodeios disse que você voltaria comigo e sem rodeios você obedeceu.

Fez apenas um bilhete de desculpas, com sua letra linda e algumas mentiras. Então, escreve seus bilhetes de desculpas e vamos embora, porque quase não sinto mais sua falta. »



PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



20.11.07, 17:43
Faça como Anna K.

Providencie algum interesse pelos arquivos deste confessionário e então, entre bobo e atordoado, retrate-se:

- Pedro, taí: você já foi bom nisso.

Tomaremos como elogio, eu e minha Underwood Five tão portátil quanto imaginária.


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



20.7.07, 10:53
Morre Antonio Carlos Magalhães
Curiosamente, 20 de julho é o Dia do Amigo


Vamo se chegando, rapeize


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



2.4.07, 03:59
Seis meses, 155 mortes. Agora é Lula

Mais de seis meses. Exatos 185 dias, um atrás do outro. Esse é o tempo que passou desde que o vôo Gol 1907 se chocou com o jato Legacy nos céus do Brasil, matando 154 pessoas inocentes.

Mais de seis meses, 185 dias, sem que o governo tomasse uma atitude coerente e encaminhasse minimamente a gestão da crise área. Crise que reduziu passageiros a indigentes esgotados, famintos e irritados jogados em saguões abarrotados de aeroportos.

No sábado passado, mais um morto por conta da incompetência do governo: um sujeito de 54 anos morreu após passar mal no aeroporto de Curitiba.

Os feriados de fim de ano e vários fins de semana se passaram com milhares de pessoas em meio a esse caos. Dia após dia, semana atrás de semana. Nada foi feito.
« Morreu depois de esperar
mais de 12 horas
pelo seu vôo
madrugada adentro.
Quem é o responsável
por essa morte?
»
Mais de seis meses, 185 dias. Foi necessário que os próprios controladores de vôo forçassem uma solução radical --greve de fome e paralisação na semana passada-- para que o governo agisse. E agiu mal.

Atropelou o comando da Aeronáutica e, bem ao estilo sindicalismo de porta de fábrica, fechou um acordo em cima dos joelhos com os controladores. Sem a anuência dos oficiais. Desautorizada e humilhada, a cúpula da FAB lavou as mãos. Abandonou o comando dos Cindactas aos próprios controladores e caiu fora.

Hoje, a situação é a seguinte: não existe um órgão que comanda formalmente os controladores de vôo no Brasil. Quem responsabilizar em caso de um novo acidente?

Mais de seis meses, 185 dias. Só então Lula, de Washington, para onde voou e retornou no horário e em segurança em seu jato presidencial, determinou que a crise do setor aéreo brasileiro seja resolvida "definitivamente" em três dias. Em três dias, mais de seis meses, 185 dias depois.
« Já era tempo.
Um novo acidente
ou uma nova morte terá,
a partir de agora,
um responsável: Lula.
»
Fernando Canzian, em sua coluna semanal para a Pensata, na Folha Online

* * *

Caro Canzian,

Às 20h40 da sexta-feira, 30, cheguei ao aeroporto Dois de Julho (Luís Eduardo Magalhães, se preferir) para o check-in do vôo 1564, da Gol, rumo a Fortaleza, onde chegaria por volta das 23h45. 15 minutos antes do meu aniversário, portanto.

Na fila, sou informado da paralisação dos controladores - ou motim, termo trabalhado pela Folha e que trata geralmente de rebeliões em presídios. Apesar das filas monumentais, reina o silêncio; muitos ali, como eu, já enfrentaram coisa pior em bancos privados.

Dali a poucos minutos chegam equipes de tevê. Àquela altura eu estava sentado sobre o carrinho da bagagem e ouvindo Bixo da Seda (grande e ignorada banda de roquenrou, por sinal). Do meio dum clarão repentino surge uma repórter que, depois de gesticular para que eu tirasse os fones de ouvido, pede que eu responda a algumas perguntas e então que liguem a câmera:
- Como o senhor está agüentando tanto tempo de espera para talvez nem conseguir embarcar?
- Eu tou bem. Só acho graça desse pessoal atiçado pelas câmeras, gritando que isso é um absurdo e que vai quebrar tudo.
Obrigada, diz ela, enquanto recolhe a equipe com evidente ar de frustração; material desperdiçado.

20 minutos e algumas cervejas depois, tenho muito sono. Um fotógrafo se aproxima, me enquadra de ângulos diversos e pronto:
« Um bocejo
na primeira página
do jornal de domingo.
Uma foto, mil palavras.
Ditadas por quem?
»

Pobre rapaz, outra vítima exausta dos desmandos do poder


Mas espere, o que é aquilo ao lado da mochila?

Quando se culpa a conjuntura recente do País por esse ou aquele problema, logo vem alguém dizer: isso é defensor do Lula, não sabe assumir os erros. É mesmo de impressionar que, diante de situações assombrosamente complexas, o quão rasteiro pode ser o nosso raciocínio.

Mas é fato: o apagão aéreo (outro termo finamente pinçado para aludir ao apagão anterior, de proporções exponencialmente mais devastadoras), como tantas outras situações inglórias deste País, é resultado dum descaso de décadas e que se arrasta também por este governo. Reduzindo o escopo, seria o mesmo que culpar o Serra, unicamente, pelos rios e esgotos que retomarão, dentro de poucos meses, o hábito primaveril de levar sua cidade pelo ralo.

Você e eu sabemos: as coisas não são bem assim.

Atenciosamente,


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



29.3.07, 18:46
Cada macaco no seu galho
Campo Grande, 29 de março de 2007





É de casa
De quando a razão de ser dum plano-seqüência é não saber editá-lo.





E amanhã chego a Fortaleza.


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



19.3.07, 14:55
Com a mão na bíblia
Juro falar a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade


31/03/2004 - Mariana
Da primeira vez em que li um texto seu:
"De: 'Pedro Henrique de Abreu'
Para: 'Juliana Sales'
Assunto: Re: tudo bem?
Data: Sex, 1 Nov 2002 11:10:56 -0200

Claro, tudo bacanudo. Descobri uma menina, menininha mesmo, dois anos mais nova - e que escreve muito, mas muito melhor que eu. Uma coceira fatal me correu a espinha. Morri de inveja e paraplegia."
* * *

01/04/2004 - Gabriel
Sujeito boa praça. Escreve como poucos e para poucos. Canta muito e para muitos. Humor intemperado e opiniões hesitantes. Um sujeito sujeito.

* * *

08/04/2004 - Paulo André
O cara, sabe? Tem isso de ser assim, super desse jeito. Manja muito sobre um bocado de coisa e isso tudo só agrega.

* * *

13/04/2004 - Luana
Daí que é sábado e vocês vêm sempre na nossa contramão. Ou nós na sua. É aquela viadagem do copo meio cheio aplicada aos encontros de meio-fio.
- E aí, como é?
- Bacanudo.
- Hoje tem o quê?
- Ritz, eu acho.
- Ah, tá.
E saio comentando "puxa, que pessoal bacana".

* * *

22/04/2004 - Chico Neto
Só me lembro de quando conheci Chico nos corredores da Central Criativa.

Hm, não, não me lembro muito bem, não.

* * *

22/04/2004 - Gabriela
Sempre que retomo o contato com Gabi, ela está num barato diferente. Ou muda o tom das conversas, ou muda o nome do gato, ou muda o segredo da porta. Qual o segredo da porta?

* * *

22/04/2004 - Osvaldo
O vô. Seu Osvaldo só gosta de filme se for pra chorar. Gosta de ir na Caixa porque as moças falam dos olhos dele. Outro dia foi de óculos escuros e ficou impopular.

* * *

03/05/2004 - Eliza
Lembra você:
"Ouça: desperolemos a ostra, delicadamente, pérola por pérola, sem perora, demora, nem rastro no ouvido, na areia, em rito calmo, porém açulado, pé ante pé, ao mergulho.

(Esqueçamos da súcia, da peleja, despistemos sua cobiça louca.)

Vamos desperolá-la da dor de dar pérola, lágrima perpétua; tê-la, a ostra, no tálamo, com freqüência, da boca. Vamos despertá-la, com cuidado, de sua sonolência.

Redobremo-nos em doçura para tirar, de dentro de suas dobras, o cisco de sal edulcorado - confeito do ardor de sobra.

Vamos lambê-la; livremos com a língua a ostra da pérola. Quem sabe, obliquamente, lançar pérola ao mar, longe da ostra."
Maia Neto

* * *

10/05/2004 - Ana Lidia
Aeroporto às três da manhã (por favor, a Sophia?), nascente no Porto das Dunas (também tem aquela do padre, conhece?), Pelourinho tarde da noite (como assim acabou o cravinho?).

* * *

25/05/2004 - Marcos Paulo
Freqüentador do Podrão, bodega que não devia nada aos grandes da cozinha internacional. Pelo menos o fog da cozinha era bem inglês.

Marcador empolgado de saídas que dão invariavelmente em porra nenhuma.

Agitador cultural. Vá à Sala da Parede Vermelha pra ver só. Eu não fui, mas a mulher do Silvio disse que é ótimo.

* * *

06/06/2004 - Germano
Como me escapam as palavras, prefiro usar uma citação - mas espere! Não é uma citação qualquer. Nem Anaïs Nin, nem Shakespeare, nem Umberto Eco, nem qualquer xamã holístico ou guru do marketing pessoal.
Não, não, não! Eu não vou me cadastrar!
Germano Vale, 30 de maio de 2004.

* * *

24/06/2004 - Karina
Não nos vemos desde 97 pra 98, quando dei uma de easy rider - sem a moto, sem a trilha e com a BR 101 no lugar da route 66 - e fui por aí.

Gostava muito de conversar com minha vizinha, que era divertida dum jeito sereno, ponderado, zen-budista.

Ninguém sabe, mas eu tinha uma queda por Karina. Tudo bem que era por Karina, Natália e todas as irmãs de todos os meus amigos. Mas com as outras eu só queria perder o cabaço.

Com Karina, depois eu acenderia uma daquelas porcarias de canela que a molecada fumava e conversar sobre o último disco da Jovem Pan, enquanto enrolava meu único pêlo do peito.

Hoje eu tou noivo e as porra, quem diria. Mas meu amor pelas irmãs dos meus amigos, esse permanece.

* * *

11/08/2004 - Marco Aurélio
Ninguém dá nada por Marcorélio. Feio, pobre, ligeiramente adunco, mora longe e dirige um Ford Ka com adesivo de vereador.

Marcorélio me faz sentir uma pessoa melhor.

* * *

24/08/2004 - Ilina
Marco Aurélio cantando as estagiárias, eu fechando um texto e Ilina, mesmo da sala ao lado, vem me falar pelo Messenger, absorta na missão do dia: irritar Pedro.
"Ilina diz:
É que eu quero que você me mande um mensagem no orkut... Falando que eu sou legal, bonita, interessante, inteligente e tudo mais."

E, não satisfeita com o resultado das horas de trabalho pesado, continua:
"Ilina diz:
Pedro! O irmão do Marco disse que era feio...
Pedro no sapato diz:
Disse que quem era feio?
Ilina diz:
Que ele é feio.
Ilina diz:
O irmão.
Ilina diz:
Ele.
Ilina diz:
Feio.
Ilina diz:
Irmão.
Pedro no sapato diz:
MAS QUE PORRA, ILINA."
* * *

01/09/2004 - Suzi
Suzi gosta de Fortaleza. Surpresa nenhuma, se a amiga dona de casa levar em conta que Suzi adora mesmo é Teresina.

* * *

04/10/2004 - Danielle
Foi na escadaria da escola. Primeiro ano, aquilo? Ela achou minhas meias engraçadas. Eu a achei linda. Ainda hoje ninguém se entende nessa porra.

Meu terceiro amor.

* * *

19/11/2005 - Thaïs
Nos olhos dos outros é refresco.

* * *

22/11/2005 - Thais Jardim
Versão moderninha duma dos Mutantes. Meu Jardim eletrônico.

Mulé bonita da porra, essa.

* * *

08/11/2006 - Briza
Briza foi ao show de calouros. Ébrias, as caravanas de Vila Cariruna, Conjunto Santa Rosa e Parque Irexê sentenciavam:
- Ela mere-cê.
* * *

Pronto, já descruzei os dedos.


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



10.1.07, 12:55
Ode ao não-lugar
ou o que dessaiu do desencontro do categoria João Ninguém
com o nobilíssimo Nowhere Man*
- Olá, como vai?
- Eu vou indo. E você, tudo bem?
- Tudo bem, eu vou indo. Correndo, pegar meu lugar no futuro. E você?
- Tudo bem, eu vou indo. Em busca dum sono tranqüilo, quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo.

* * *

- Me perdoe a pressa. É a alma dos nossos negócios.
- Oh, não tem de quê. Eu também só ando a cem.
- Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí.
- Pra semana, prometo. Talvez nos vejamos, quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo.

* * *

- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas.
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança.
- Por favor, telefone. Eu preciso beber alguma coisa rapidamente.
- Pra semana.
- O sinal!
- Eu procuro você.
- Vai abrir! Vai abrir!
- Prometo, não esqueço.
- Por favor, não esqueça!
- Não esqueço, não esqueço.
- Adeus.
- Adeus.
*Eminente fisicista, poliglota classicista, premiado botanista, sarcástico satirista, talentoso pianista, bom dentista também.









Para ler: Velhas histórias, memórias futuras, de Eduardo Coutinho (EdUERJ), sobre o tradicional e o nem tanto na obra de Paulinho da Viola.







PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



31.12.06, 21:50
Um beijo. Até amanhã.

PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



29.10.06, 20:51
Já dizia Neil Young
(Ou parafraseando a mim mesmo)








« Hey hey, my my
Rock and roll can never die
»








PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



6.10.06, 15:13
« Black is the colour of my true love's hair »
Escrito por Leslie Nelson-Burns. Cantado por Nina Simone. Repetido, repetido, repetido por mim.


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



2.10.06, 02:22
O dito pelo contradito

Com quase 54% dos votos válidos, Jaques Wagner foi eleito governador da Bahia já no primeiro turno. Uma lavada no carlismo. Uma lavada nas pesquisas que assoviavam vitória fácil da patota de ACM. Também sinto a alma lavada, embora o sabonete não seja lá esse Palmolive todo; Jaques tem o mesmo carisma da gaveta do meu criado-mudo. E o único cargo majoritário a que havia sido postulante foi o de prefeito de Camaçari. Perdeu.


É saudável que haja segundo turno para a presidência e que Lula baixe a bola. Há quem vá mais longe: logo após a definição do novo pleito, a virulenta Eliane Cantanhêde não se conteve:
« Lula vai ter que dar um duro danado, sem se contentar com os 70% de votos do Nordeste e do Norte. Ele vai ter que buscar votos no eleitorado muito mais exigente e crítico do Sul e em São Paulo, onde perdeu »
Enviei comentário à colunista, que compartilho com meus amiguinhos de subterrâneo:
« Eu gostaria de saber se Eliane credita a votação em Lula a um eleitorado pouco crítico e pouco exigente. Não custa lembrar: o que a colunista afirma ser uma massa votante crítica e exigente acaba de colocar na Câmara Maluf, Russomano, Clodovil e Enéas »
Meu amigo Gabriel Ramalho já tocou no assunto das preleções geográficas em texto de 29 de setembro, quando fez críticas ao articulista Guilherme Fiuza. A Fiuza juntam-se Cantanhêde, o pessoal do Mídia sem Máscara, os wunderbloggers e um caminhão limpa-fossa apinhado de gente. Na contramão, sem muito alarde e com elegância desconcertante, Maria Inês Nassif leva por terra o argumento mal-comido de que o não-voto em Alckmin se deve à falta de crítica e exigência, para depois concluir, como se travasse diálogo direto com Cantanhêde:
« Se a elite brasileira aprendeu só esse tortuoso travo racial de um processo eleitoral que é rico pelo que ele tem de novo, pobre deste país. Mais pobre que os pobres, os pretos e os nordestinos. (...) A escolha do pobre não é crime. Reflete anseios, um descaso secular, uma distância profunda dos ricos. É uma escolha racional »


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



30.9.06, 16:12
O poder, custe quem custar

Contradição 1: a imprensa que diz não tomar partido
ou Os partidos coleguinhas da imprensa

Um recurso popular no horário político encerrado quinta-feira foram os recortes de jornal que falavam bem do dono do horário e mal de seus opositores. Quando não encontravam nos grandes periódicos a matéria com os termos desejados, procuravam-na entre os nanicos ou diagramavam a sua própria. Reflexo da influência decisiva da imprensa no processo eleitoral: é a voz do coletivo sem dono, assexuado, sublime.

Para determinadas correntes políticas, balizar ataques com capas e manchetes é tarefa particularmente facilitada. Ontem mesmo vi um comercial do PFL baiano e nele uma pilha interminável de revistas acompanhada de narração fúnebre. Tudo seriam denúncias contra Lula e o PT. Curiosamente, no montinho recorria apenas a revista Veja - o que nos leva de pedalinho à contradição 2.

Contradição 2: MTV engajada e MTV-bênção-papai
ou A Cozinha Maravilhosa da Ofélia

"Prepare o seu saco, os ovos e os tomates." Essa é a receita do canal da molecada contra o fastio político. O mesmo canal que nos ensinou a substituir comportamento por attitude, mothafucka agora fala em nacionalismo. O mesmo canal que vende edições de Veja Jovem nos programas da casa agora fala em consciência política. Vai vendo.

Contradição 3: militares torcem pela democracia
ou Como era gostoso o nosso regime

O Clube Militar, turminha bequetranque capitaneada pelos presidentes dos clubes Militar, Naval e Aeronáutico, exibe em seu sítio textos curiosos. No mais recente comentam-se os seguidos episódios de corrupção envolvendo figuras do Governo Federal e do Partido dos Trabalhadores. Ei-lo:
Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2006

Em meados de 2005, explodiu o escândalo do chamado "mensalão", a partir do flagrante preparado contra um funcionário desonesto e das denúncias abertas de um Deputado ameaçado pela armação que se preparava para fazê-lo o "bode expiatório".

A Nação a tudo assistiu, aturdida pela desfaçatez de homens públicos e membros do governo.

A partir de então, todos os dias são tornados públicos novos escândalos, sempre envolvendo pessoas próximas ao Governo, ao Presidente ou ao seu Partido.

As demissões, forçadas pelas circunstâncias e pelo constrangimento político, nunca foram acompanhadas de completa apuração e das punições necessárias.

A sucessão de casos escabrosos e de atos de corrupção já não surpreende o brasileiro honesto.

Nesta semana, surge outro escândalo. Uma tentativa de comprometimento de dois candidatos a cargos executivos com o "caso da compra das ambulâncias", mediante a negociação fraudulenta de suposto "dossiê". Chantagem ou denúncia, mas com a evidente intenção de desqualificar concorrentes eleitorais. Novamente, envolvendo assessor do Presidente, pessoas importantes na hierarquia do seu Partido e dinheiro de procedência duvidosa.

Já se torna evidente que a corrupção não é somente um ilícito do qual se beneficiam pessoas e grupos, mas sim algo que se transformou em meio de conquista e manutenção do poder.

A sensação é de perigo iminente à Democracia. Por isso os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica, por seus Presidentes, sentem-se no dever de manifestar, publicamente, sua indignação com esse estado de coisas e de ressaltar a importância das próximas eleições como instrumento à disposição do povo brasileiro para o saneamento da vida política nacional.

Alte Esq José Julio Pedrosa
Presidente do Clube Naval

Gen Ex Gilberto Barbosa de Figueiredo
Presidente do Clube Militar

Ten Brig Ivan Moacyr da Frota
Presidente do Clube de Aeronáutica
Note-se que o conteúdo do dossiê desfavorável a Serra e Alckmin - apontado por 68% dos associados do Clube Militar como novo presidente da República - não é mencionado. No texto seguinte, o mesmíssimo General Gilberto Figueiredo discursa a militares por ocasião do Dia do Soldado. O discurso, muito aplaudido pelos presentes, mereceu trecho com destaque full-colour no sítio do Clubinho:


Não me entra na cabeça: o sujeito assustado com o que chama de "perigo iminente à democracia" e convoca para o voto como instrumento de "saneamento da vida política nacional" é o mesmo que, carinhosamente, refere-se aos presidentes dos anos de chumbo como administradores cujo bom exemplo deveria ser seguido. Para o general - como para 68% dos associados do Clube Militar - o mais indicado para retomar os trabalhos da ditadura é Geraldo Alckmin.

Vota, Brasil.


PEDRO HENRIQUE DE ABREU | LINK |



I'm a spiteful man. I believe my liver is diseased. Apple WebObjects This page is powered by Blogger. Isn't yours? BlogBlogs.Com.Br